Quatro mulheres são resgatadas de casa de prostituição em Goiana por situação análoga à escravidão
16/06/2026
(Foto: Reprodução) Auditora-fiscal do Trabalho Camila Ramos fala sobre rede de prostituição em PE, PB e RN
Quatro mulheres submetidas a condições de trabalho análogo à escravidão foram resgatadas durante uma operação em Goiana, na Zona da Mata Norte de Pernambuco. Segundo as investigações, elas viviam numa casa de prostituição que fazia parte de uma rede de tráfico humano interestadual com outros cinco pontos localizados em cidades da Paraíba e do Rio Grande do Norte.
As apurações apontam, ainda, que todos os estabelecimentos pertenciam a uma empregadora e eram administrados por parentes dela, que mantinham as trabalhadoras sob um sistema de controle baseado em dívidas, multas arbitrárias, vigilância constante e restrição de autonomia (veja vídeo acima).
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A Operação Donos da Noite foi deflagrada na quarta-feira (10), mas os dados sobre as investigações só foram consolidadas nesta terça (16) pela Auditoria Fiscal do Trabalho, ligada à Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). A ação também foi coordenada pela Polícia Federal e resultou no resgate de 22 mulheres nos três estados.
"Constatamos trabalhos forçados. Eram realizadas, por exemplo, festas nessas casas em que elas eram obrigadas a trabalhar, independentemente de sua vontade. E havia, inclusive, um sorteio em que uma delas, durante essas festas, era sorteada para fazer um programa gratuito com algum cliente da casa", afirmou a auditora-fiscal do Trabalho Camila Ramos.
O caso começou a ser investigado pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) da Polícia Civil da Paraíba, mas o inquérito acabou sendo federalizado após a identificação de uma rede de tráfico humano. Além de Goiana, a rede sustentava outros cinco pontos de prostituição, nas cidades de Guarabira (PB), Pedro Régis (PB), Alagoa Grande (PB) e Nova Cruz (RN).
Conforme a SIT, foram identificadas diversas violações de direitos humanos e trabalhistas em Goiana. O esquema funcionava da seguinte forma, de acordo com o órgão:
as mulheres acumulavam débitos relacionados à alimentação, produtos de higiene pessoal, roupas, perfumes, procedimentos estéticos, colocação e manutenção de mega hair e outras despesas cobradas pelos próprios responsáveis;
os valores eram definidos unilateralmente, sem qualquer transparência e, em geral, acima da média de preços do mercado;
em alguns casos, as vítimas também ficavam sem receber os serviços prestados durante a semana, permanecendo constantemente endividadas;
a empregadora estabelecia metas de venda de bebidas alcoólicas e petiscos, que, se não fossem cumpridas, resultavam na aplicação de multas financeiras, incorporadas ao sistema de dívidas;
as mulheres também eram submetidas a jornadas "extremamente prolongadas", sendo mantidas por períodos que se estendiam da tarde até a madrugada;
mesmo quando não estavam realizando programas sexuais, as vítimas eram obrigadas a ficar nos salões aguardando clientes, sem autonomia para definir horários de descanso.
Ainda segundo o MTE, as mulheres relataram sofrer pressão psicológica para fazer programa, inclusive quando estavam doentes, indispostas ou menstruadas. A recusa também resultava na aplicação de multas que faziam a "dívida" com a empregadora crescer.
Além disso, conforme as investigações, as vítimas viviam em quartos coletivos, sem ventilação, com instalações precárias e condições insatisfatórias de higiene. Em alguns casos, de acordo com o MTE, os mesmos ambientes eram utilizados para moradia e exploração sexual.
"Foi constatada a existência de tráfico de pessoas e trabalho análogo ao escravizado. Mulheres eram recrutadas em seus estados de origem, levadas para outros estados, onde eram realizados os programas sexuais. Chegando nesses bares, elas também eram transferidas ou deslocadas para outros bares de outras cidades, independente de suas vontades", explicou a auditora-fiscal Camila Ramos.
Durante a operação, a mulher que comandava o esquema teve o celular apreendido e o marido dela chegou a ser detido por porte ilegal de arma em Nova Cruz (RN), mas foi liberado em seguida.
Unidades de exploração sexual
Ao g1, o auditor-fiscal do Trabalho Magno Riga, que coordenou as equipes da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE) nos três estados, disse que três das quatro mulheres que trabalhavam na casa de Goiana estavam no local no dia da inspeção. A quarta vítima foi encontrada em outra cidade, mas tinha passado pelo estabelecimento pernambucano recentemente.
"Os seis estabelecimentos pertenciam às mesmas pessoas, sob o comando de uma mulher, que gerenciava o trabalho das profissionais do sexo [...]. Um deles estava efetivamente fechado, o outro abria, mas não todas as noites e não tinha ninguém. Nas outras quatro (casas), as mulheres estavam alojadas", contou.
A chefe da organização criminosa foi formalmente notificada pela caracterização do trabalho em condições análogas à escravidão, segundo a Auditoria Fiscal do Trabalho. Os fiscais também determinaram a interrupção das atividades, o pagamento dos direitos trabalhistas, o custeio do retorno das vítimas às suas cidades de origem e o fechamento dos locais.
Segundo Magno Riga, a Polícia Federal apenas cumpriu mandados de busca e apreensão nos locais, já que não foi expedida nenhuma ordem de prisão pela Justiça.
"Do ponto de vista da fiscalização do trabalho, a auditoria-fiscal resgata quando o empregador é notificado e obrigado a cessar a atividade desses trabalhadores, isso checamos que foi cumprido. Eles precisam regularizar a situação trabalhista, isto é, anotar o vínculo trabalhista, pagar os direitos trabalhistas, férias, horas extras, e garantir o retorno das pessoas aos lugares de origem. Dessas obrigações todas, a que a empregadora cumpriu foi cessar as atividades. As demais não foram", disse.
O auditor-fiscal afirmou, ainda, que a investigação criminal pela Polícia Federal segue em andamento. "Em algum momento, esses trabalhos se encontram. Em algum momento da investigação criminal, eles vão receber nosso trabalho como provas das condutas", explicou.
Operação Donos da Noite investigou rede de exploração sexual em Goiana, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, e cidades da PB e do RN
MTE/Divulgação
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